quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

CAPÍTULO II - DO LIVRO

   



   Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a pena na mão.
Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Mata-cavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do teto e das paredes é mais ou menos igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos bicos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do teto as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo... Não alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Mata-cavalos, já ela estava assim decorada; vinha do decênio anterior. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é também análogo e parecido. Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.
O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mais falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não agüenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos-santos. Quanto às amigas, algumas datam de quinze anos, outras de menos, e quase todas crêem na mocidade. Duas ou três fariam crer nela aos outros, mas a língua que falam obriga muita vez a consultar os dicionários, e tal freqüência é cansativa.
Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco apareço e menos falo. Distrações raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal.
Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudência, filosofia e política acudiram-me, mas não me acudiram as forças necessárias. Depois, pensei em fazer uma História dos Subúrbios, menos seca que as memórias do padre Luís Gonçalves dos Santos, relativas à cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas, como preliminares, tudo árido e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Aí vindes outra vez, inquietas sombras?...
Fiquei tão alegre com esta idéia, que ainda agora me treme a pena na mão. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca me esqueceu. Tive outras muitas, melhores, e piores, mas aquela nunca se me apagou do espírito. É o que vais entender, lendo.



   



Recomendamos para você:


#JustGo

O Holy Night - Tradução em Português - Ellie Goulding

Dom Casmurro - Machado de Assis

Dom Casmurro - PDF Download Book Livro Baixar Online - Machado de Assis

São Paulo - História e Geografia - Conheça seu Estado - SP

Santa Catarina - História e Geografia - Conheça seu Estado - SC

História e Geografia do Estado de Mato Grosso do Sul - MS

História e Geografia do Estado do Paraná - PR

História e Geografia do Estado do Rio de Janeiro - RJ

Side Effects - Tradução em Português - Ty Dolla Sign

Pesadão - IZA ft. Falcão

Big Jet Plane - Tradução em Português - Alok & Mathieu Koss

Chosen One - Tradução em Português - Youngboy Never Broke Again ft Kodak Black

Feels Great - Tradução em Português - Cheat Codes ft. Fetty Wap & CVBZ

Beast Mode - Tradução em Português - A Boogie Wit Da Hoodie feat. PnB Rock & Youngboy Never Broke Again

Love Is Gone - Tradução em Português - G-Eazy ft. Drew Love (of THEY.)

Joga no Passinho - Harmonia do Samba

Coupe - Tradução em Português - PnB Rock

Unlock It - Tradução em Português - Charli XCX (feat. Kim Petras and Jay Park)

Ser Humano - Fabio Brazza

Na faixa - Saudosa Maloca

Olhares - Cynthia Luz e Sant

Heart Shaker - Tradução em Português - TWICE

Heart Shaker - English Translation - TWICE

Heart Shaker - Romanization - TWICE

Heart Shaker - TWICE

Miss You - Tradução em Português - Louis Tomlinson

Uma Dose 2 - Class A

Química - Rashid

Ain't That Why - Tradução em Português - R3HAB & Krewella

Segura Seu BO - Projota ft. Rashid

Benza Deus Hein Fia - Menor

Ela Vem - Pollo

Israel - Preto no Branco

Tô com moral no céu - Marcos e Fernando

Meu Coração - Gustavo Mioto

RIP CARBON - Tradução em Português - Almighty

RIP CARBON - English Translation - Almighty

Háblame Bajito - Tradução em Português - Abraham Mateo, 50 Cent, Austin Mahone

Check-In - Luan Santana

Poesia Acústica #3 - Capricorniana - Sant | Tiago Mac | Lord | Maria | Choice | Pineapple StormTV

Downtown - Tradução em Português - Anitta feat. J Balvin

Downtown - English Translation - Anitta feat. J Balvin

Não Troco - Hungria Hip Hop

MotorSport - Tradução em Português - Nicki Minaj - Migos - Cardi B

Pangeia - Fabio Brazza part. Atentado Napalm

Vai Te Encantar - Cynthia Luz

Untouchable - Tradução em Português - Eminem

Danger - Tradução em Português - Migos & Marshmello

Vai Ma andra - Anitta

Vai Malandra - Anitta | Letra da Música

Vai Malandra - Funk - Anitta ft. MC Zaac

Vai Malandra - Letra da Música - Anitta ft. MC Zaac, Maejor, Yuri Martins e Tropkillaz

Vai Malandra - Anitta ft. MC Zaac, Maejor, Yuri Martins e Tropkillaz - CheckMate

Vai Malandra - Anitta

Vai Malandra - Anitta

Vai Malandra - Anitta | Letra da Música

Vai Malandra - Anitta | Letra da Música

Economia em 1 Minuto - Sanderlei Silveira

São Paulo SP - História e Geografia

Santa Catarina - História e Geografia - SC

História e Geografia do Estado de Mato Grosso do Sul - MS

História e Geografia do Estado do Paraná - PR

História e Geografia do Estado do Rio de Janeiro - RJ

Totvs - Datasul - Treinamento Online (Gratuito)

Mein Kampf - Minha luta - Adolf Hitler

Livro: Dom Casmurro de Machado de Assis

by Sanderlei Silveira -  http://sanderlei.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário